Apenas uma leitura
O que a internet mais tem agora são textos falando do lançamento do filme e apresentando cenas do roteiro. Parece ser uma tentativa de situar o leitor que não viu o filme no que acontece no filme. Como a internet está transbordando de resumos do roteiro, talvez um texto mais interpretativo, com uma tese, uma sugestão de chave de leitura do filme, a essa altura do campeonato seria interessante.
A primeira opção que parece vir à tona ao se tentar interpretar o filme é ter de escolher se o filme é pessimista ou otimista ou neutro. Como aquele que vos escreve é muito pessimista (com respeito às ações humanas) pensei em me desafiar a fazer o contrário do que faria com facilidade: Arriscarei construir ou sugerir uma leitura de que o filme possui elementos de otimismo.
Primeiramente, remeto ao contexto externo do filme. De força argumentativa mais fraca, mas não menos importante, é preciso atentar para as afirmações do diretor do filme e para a carreira de crítica social/política que são representados pelos filmes que o diretor de tropa de elite 2 possui em seu currículo. Parece estranho alguém perder tempo com 3 filmes críticos para trazer a tela dos cinema uma visão pessimista de mundo. Nesse sentido, parece que às vezes, o filme pode mais despertar um pessimismo resguardado no pensando do telespectador do que algo inerente ao filme. É preciso cuidar para achar certo equilíbrio entre a intenção da arte e a interpretação que fazemos dela. Se não corremos no risco de achar que o cocô de barata na tela poderia ter um papel fundamental no filme até que o diretor vem e diz que é só um cocô de barata. Bom, mas como disse, esse ponto é de fraca força argumentativa. Tentarei uma mais forte.
Em segundo lugar, não é necessário achar que um filme que não tem final feliz aos moldes hollywoodianos seja um filme pessimista. Se pautar pelo cinema americano pode ser um erro fatal. Pois, no geral, o cinema americano é ficção por ficção, e quando quer criticar coisa séria com um roteiro escrito a partir de fatos reais substituindo tudo por nomes fictícios, reserva um espaço muito bem específico para isso conhecido sob o nome de DOCUMENTÁRIO. Além disso, também é algo muito ingênuo fica fazendo um levantamento estatístico do filme entre cenas tristes e cenas felizes, ou entre cenas frustradas e cenas felizes. Nesse sentido, o filme cai facilmente na vala comum do pessimismo porque é uma corrupção atrás da outra. Quando se tira o tráfico da favela, surgem as milícias. Quando se eliminam as milícias, descobre-se os políticos estaduais corruptos. Quando prendem os políticos estaduais, descobre-se que o buraco é mais embaixo, melhor dizendo, mais em cima com os políticos federais. Mais alguns minutos de filmes e o Padilha mostraria o filme tropa de elite 1 sendo assistindo, com versão pirata, no avião presidencial. E aí, mais uma vez a vala comum abre-se e todos saímos do filme com a idéia: “faca na caveira e porrada em todo mundo”, inclusive em nós mesmos, porque se até o presidente ….
Agora, uma abordagem otimista que pode ser insinuada é o aspecto positivo e esclarecedor que essa linha de corrupção acima apresentada trás a tona. A mídia tradicionalmente confunde a cabeça do telespectador ou resume a missa de forma muito confusa. Já o primeiro filme vem para mostrar como o consumidor final de drogas da universidade, que não planta sua própria maconha, sustenta o tráfico de drogas. Tal crítica, aos olhos do próprio diretor é clichê, mas precisava ser um passo para no segundo filme, mostrar uma linha de corrupção mais desconhecida da maioria do povo. Afinal, “sai o tráfico, entram as milícias a serviço de políticos” não é uma crítica que se veja na TV costumeiramente”. Ela pode ser colocada dentro da parte em que o filme diz ser uma obra fictícia. Mas, o que pensar quando o diretor diz que no rio a coisa é pior do que o filme mostra?
Retomando, acredito que se o primeiro filme foi clichê no roteiro por mostrar a tão batida relação entre o consumo de drogas e o tráfico (o que nos fez ficar com as frases de feitos na cabeça e dando a mínima para o pano de fundo “consumo X tráfico de drogas”), o segundo não incorre neste erro. O tráfico abre espaço logo no começo para mostrar como o título filme sinaliza: “O inimigo é outro”. E isso é algo positivo, pois traz para a sociedade um aspecto desconhecido. Quando o Nascimeto vai colocar a boca no trombone, ou no microfone diante da câmara, as primeiras falas são de alguém profundamente frustrado com a polícia, alguém voltando atrás em suas convicções. Alguém assumindo que é preciso diante dos novos fatos, mudar, refazer as linhas de pensamento, e planejar novas posturas. Aquele cara que acreditava que a solução pra bandido é a morte, aquele cara que estava torcendo para os caras em Bangu I se matarem não estava mais naquele cara que pegou o microfone. O Nascimento ao microfone era alguém que percebeu que bandido é a apenas bode expiatório. Que a solução estava trás de saber “para quÊ” ou “por quem” se mata. Uma mudança de postura dessa magnitude não pode soar como algo pessimista. Se a capacidade de mudar o diagnóstico não é algo positivo, o que mais pode ser? Até para mim, que não tenho muita fé nos homens, acho que o filme mostra que o Cap. Nascimento entrou na Secretaria, ficou sem chão, totalmente perdido quando o Mathias morreu, mas se reencontrou quando sobreviveu àquela emboscada e foi parar no microfone. (quer uma melhor atualização da tão batida jornada do herói)
Agora, também seria incorrer em erro tirar o problema de um lugar e colocar em outro. E isso me leva a cena final. O filme não carece de uma terceira película, porque Padilha foi até o fim, e nos mandou um perfeito cruzado que já era pretendido desde o primeiro filme: tudo parecia começar na favela, mas em verdade, tudo começa em Brasília. E quem coloca os caras lá em Brasília?
Ainda quero fazer uma leitura de algumas cenas específica do filme, como por exemplo, a cena em que o Nascimento é aplaudido de pé quando entra no restaurante para bater de frente com os políticos. A cena em que o político toma uma surra, e a cena em que a velinha liga para o Rocha pedindo mais dinheiro para não alugar a casa pra outra pessoa.